Escreve que eu (não) te leio

Escreve que eu (não) te leio

Sinceramente, eu estou cansado. E confuso. A famosa “modernidade 2.0” dos recursos digitais, vida corrida, interações virtuais, relações dinâmicas estabeleceu um mantra no jornalismo: escreva pouco, porque as pessoas não têm mais tempo para ler. Tempo. Tempo. Tempo? Tem certeza? E se trocarmos “tempo” por “interesse”? Um dia, em um tempo passado, não muito distante, a responsabilidade de quem não lia muito era justamente dessa pessoa que lia pouco. Hoje, a culpa é de quem escreve. Simples. Estamos nivelando por baixo. E está todo mundo achando isso bom.

Vivemos em um país com um analfabetismo funcional gigantesco. Saber ler e escrever já não é mais um problema. A situação agora é interpretar, conhecer novas palavras. Mas como, se as leituras são absurdamente superficiais, hoje?

Nós, comunicadores, que escrevemos os mais variados assuntos para informar/entreter/noticiar/orientar/recomendar/educar o público, estamos castrados. A gente não pode mais escrever muito, porque não seremos lidos. E há um coro uníssono de que isto está certo.

Ou eu sou muito inteligente, ou muito burro, porque está claro, límpido e transparente que esta cultura da “leitura rápida”, “texto curto”, “somente o necessário” está contribuindo vertiginosamente para um círculo vicioso: escreve-se pouco – lê-se pouco – conhece-se pouco – não se desenvolve a capacidade de interpretação – aumentam as dificuldades de entendimento – perde-se o interesse pela leitura – é preciso escrever pouco para captar leitores. É um ciclo fétido, grotesco, absurdo e sem fim.

Eu tenho vontade de dar um tiro no cú (desculpe o ápice da minha revolta) quando o cidadão vem pedir para eu escrever pouco porque ninguém lê. Claro, animal! Sua anta de patins! As pessoas leem pouco porque tem uma galera aí acostumando elas mal. Dando comidinha mastigada na boca. Privando as pessoas de desenvolverem um senso crítico mais aguçado. Ou você acha que é possível explicar toda esta carniça política brasileira em um texto de 1000 caracteres?

Ah, pelo amor de Jeová, esta situação já está chata! Se você quer uma pessoa interessada, comprometida, participativa, dê a ela a oportunidade de ler, ler muito, ler com frequência. Dê a ela o acesso a novas ideias, novas divagações, novos vocábulos, novos argumentos, novos raciocínios.

Continue alimentando-a com comida enlatada e semi-pronta e terás um robozinho, seguidor de ordem, aquele que nada questiona, só recebe e cumpre ordens. E não será isso mesmo que muitos querem?

 

Sobre o Autor

Ricardo Sottero administrator

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